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Divulgue suas obras

Abraham Palatnik

| Abraham Palatnik | 23/05/2012

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“Doar um novo lugar para as coisas, engendrar poesia na tecnologia e ampliar o horizonte da arte…”

Artista cinético, pintor e desenhista, Abraham Palatnik ficou conhecido por ser um dos pioneiros e a maior referência em arte cinética.

Hoje o artista desfruta de um lugar próprio na história da arte brasileira e internacional, atualmente mora no Rio de Janeiro onde vem desenvolvendo trabalhos que unem pesquisa visual e rigor matemático.

Obra e Artista - Abraham Palatnik

Obra e Artista

Nos anos 60, começou a produzir máquinas artísticas, nas quais peças coloridas ganham movimentos harmônicos inusitados, em função de um complexo sistema de motores e engrenagens. Comentando no catálogo da Bienal de Veneza de 1964 as quatro obras que Palatnik exibiu na mostra italiana, o poeta Murilo Mendes ressalvou a “extrema liberdade do artista, ao qual não se aplicam os rótulos convencionais, nem as fronteiras entre as várias artes (o que já estava previsto em Leonardo)”. Para o poeta, as obras de Palatnik “são tangentes à pintura e ao cinema”, e o desenvolvimento de suas formas “obedecem ao um jogo dialético entre o sólido e fluido”. E concluiu o escritor: “Constituindo-se em uma espécie de lanterna mágica do nosso tempo, seus elementos não são fornecidos do exterior, mas elaborados com rigor pelo artista, que aspira a conciliar o espaço e o tempo”.

O que singulariza o trabalho de Palatnik é o uso que ele faz da tecnologia e suas possibilidades inovadoras. Não se trata de uma arte que está a serviço da técnica, mas sim de um olhar atento que sabe retirar dos materiais mais diversos toda sua potencialidade poética. Misto de artista e desenhista industrial, Palatink possui muitas idéias construtiva na vontade de integrar arte e vida.

Apesar de ser menos conhecido do grande público que outros colegas de geração, Abraham Palatnik não se considera injustiçado. Afinal, ele sabe exatamente o lugar que ocupa na arte brasileira e internacional.

Biografia – Abraham Palatnik

Abraham Palatnik nasceu em Natal, Rio Grande do Norte, em 1928, oriundo de uma família de judeus-russos. Muda-se ainda criança para Tel-Aviv, Israel, onde ingressa na Escola Técnica Montefiori. Entre 1943 e 1947, dedica-se aos estudos de pintura, desenho, história da arte e estética, no Instituto Municipal de Arte de Tel-Aviv.

Abraham Palatnik - Objeto cinético - 83 x 36 x 36 cm - Aço, madeira pintada, latão e motores - 1966 / 2003

Objeto cinético – 83 x 36 x 36 cm – Aço, madeira pintada, latão e motores – 1966 / 2003

Em 1948, regressa ao Brasil, instala-se no Rio de Janeiro e conhece artistas como Renina Katz, Almir Mavignier e Ivan Serpa. Com Mavignier, freqüenta a casa do crítico de arte Mário Pedrosa e os ateliês do Hospital Psiquiátrico do Engenho de Dentro. Diz o artista: “O impacto das visitas ao Engenho de Dentro e as conversações com Mário Pedrosa demoliram minhas convicções em relação à arte”. Palatnik deixa de pensar a qualidade da obra baseada no manejo realista das tintas e na associação da arte com o motivo. Sua pintura e sua escultura abandonam os critérios escolares de composição e partem para relações livres entre formas e cores.

Após pintar algumas telas construtivas, Palatnik começa em 1949, a projetar máquinas em que a cor aparece se movendo. Com base nesses experimentos são criadas caixas de telas com lâmpadas que se movimentam por mecanismos acionados por motores. Mário Pedrosa chama as invenções de Aparelhos Cinecromáticos mostrados pela primeira vez em 1951, na 1ª Bienal Internacional de São Paulo. Foi uma verdadeira aventura para Palatink, visto que não se tratando de pintura convencional não foi aceito pela comissão e foi somente introduzido posteriormente.

Curiosidades

Uma entrevista feita em 1986 com o artista plástico Abraham Palatnik e agora republicada no livro “Luz & Letra”.

“Luz & Letra”, livro recentemente lançado pelo artista brasileiro Eduardo Kac, radicado nos EUA, reúne artigos e ensaios escritos nos anos 80, publicados em jornais e revistas brasileiras. O conjunto permite ao leitor construir uma espécie de “retrato do artista quando jovem”. Ao mesmo tempo, o lançamento oferece um panorama da arte tecnológica na época.

Trecho da entrevista feita por Eduardo Kac com o pintor e também desenhista Abraham Palatnik.

Eduardo Kac – Como foi o seu contato com Mario Pedrosa? Qual a influência que ele, enquanto um crítico afinado com a arte de vanguarda, exerceu sobre o seu processo criativo?
Abraham Palatnik – Eu cheguei a conhecer o Mario Pedrosa em 1948, através de colegas como Ivan Serpa e Almir Mavignier. O Mario deu muita força às minhas pesquisas, que eram absolutamente não tradicionais; eu já havia feito pintura, mas, quando dei início às experiências, abandonei o pincel e comecei a mexer com coisas que não tinham nada a ver com o conceito tradicional de arte.
Para a época, o que eu fazia não podia ser arte, tanto assim que na época da 1ª Bienal eu tive muitos problemas. Eu não podia ser julgado, não podia entrar na Bienal, não tinha seção na Bienal para a minha arte cinética. O Mario Pedrosa inventou o nome para um dos meus aparelhos, que a partir de então passou a se chamar “Cinecromático”, e estimulou muito minhas investigações com luz e movimento.

Kac – Como foi o caso da 1ª Bienal? O primeiro cinecromático foi visto como uma obra de arte revolucionária ou, pelo contrário, foi tido como uma curiosidade sem maiores consequências no futuro?
Palatnik – Na verdade eu entrei por sorte. A princípio meu aparelho foi recusado, porque não era pintura, nem escultura, desenho ou gravura.
Houve um lapso da delegação japonesa, que não chegou a mandar a tempo o material que havia prometido. Então alguém, não sei quem, se lembrou do meu trabalho e sugeriu que fosse colocado no lugar vago. Eu me lembro que o Almir virou para mim e disse: “Abraham, você vai expor na Bienal! Vão te enfiar no lugar do Japão”.
Enfim, o júri internacional ficou surpreso e deu uma menção especial ao trabalho; daí veio o reconhecimento de que aquilo era “uma importante manifestação da arte moderna”, como eles disseram.
Mesmo assim, nas próximas Bienais eu recebi convites para expor, mas com a condição de não concorrer a premiação, pois não havia seção que comportasse meu trabalho.

Comunicação Cinetica - 1967

Comunicação Cinetica – 1967

Kac – Você é um dos poucos artistas brasileiros que é amplamente reconhecido no exterior. Na verdade, mais conhecido lá fora do que no país. Qual foi a repercussão internacional de seu trabalho nos anos 50, quando você conduzia as pesquisas pioneiras no campo da arte cinética?
Palatnik – Anos depois de participar seguidamente das Bienais de São Paulo, sempre aperfeiçoando meus aparelhos, fui convidado a participar da Bienal de Veneza, e lá novamente eu tive a sorte de ser procurado por um poeta e crítico italiano, Carlo Belloli. De posse das provas de que começei a trabalhar com luz e movimento em 1949, e de que mostrei os primeiros resultados em 1951, ele corrigiu a informação na Europa.
Isto porque a informação vigente naquela época era a de que os precursores em arte com luz e movimento eram Malina e Schoffer -e justamente na 1ª Exposição Internacional de Arte Cinética esta correção já estava evidente no diagrama publicado pela galeria Denise René, de Paris.

Kac – Além de luz e movimento, você também pesquisa as potencialidades do magnetismo em arte. Em que medida este interesse por fenômenos científicos contribuem em suas investigações?
Palatnik – Na realidade, todas as forças físicas da natureza me interessam. O magnetismo é tão surpreendente que jamais poderia escapar à minha curiosidade estética. Eu fiz alguns trabalhos magnéticos, e um deles estou expondo na Aktuell. Um múltiplo desta peça enviei para “A Nova Dimensão do Objeto”, uma mostra coletiva ora em curso em São Paulo (no Museu de Arte Moderna da USP). É um objeto que utiliza a natureza dos pólos positivo e negativo dos imãs, no sentido de atração e repulsão.

Kac – É verdade que hoje, a arte “high tech” conhece novas formas de manifestação estética, que surgiram com o domínio exercido por artistas sobre novas tecnologias de ponta. Como você vê a arte tecnológica hoje?
Palatnik – É a compreensão da importância da forma, não apenas no mundo externo mas também nas raízes inconscientes da atividade humana, que permite desmanchar a oposição habitual que se faz entre arte, ciência, tecnologia e comunicações. A tecnologia, na evolução do homem, adquire significado e está em evidência na medida em que ela permite aos sentidos um acesso consciente à mecânica das forças naturais.
Eu particularmente me interesso pelas novas tecnologias e gostaria de trabalhar com algumas delas. Se eu estivesse começando em arte, hoje, sem dúvida estaria fazendo pesquisas com holografia e computadores, por exemplo. Eu não tenho acompanhado de perto tudo o que se faz no Brasil, mas estive na inauguração da mostra Brasil High Tech, este ano, na qual pude ver muitas experiências interessantes. São realmente os artistas que pesquisam que podem proporcionar essencialmente o contato com o inesperado, vivificando assim o que chamamos de “criatividade”.

O texto acima foi publicado originalmente na “Folha de S. Paulo”, em 14/10/1986.

O livro
“Luz & letra – Ensaios de arte, literatura e comunicação”, de Eduardo Kac. Contra Capa Livraria ( LINK ).

Eduardo Kac
É artista plástico.

Cronologia

1928/1932 – Vive em Natal, Rio Grande do Norte

1932/1947 – Transfere-se com a família para Israel

1942/1945 – Faz curso de especialização em motores de explosão na Escola Montefiori, Tel Aviv, Israel

1943 – Freqüenta os estúdios do pintor Haaron Avni e do escultor Sternshus; se torna aluno de estética de Shor, em Tel Aviv, Israel.

1943/1947 – Estuda pintura, desenho, história da arte e estética no Instituto Municipal de Arte, Tel Aviv, Israel

1948 – Retorna ao Brasil e reside no Rio de Janeiro. Conhece o crítico Mário Pedrosa (1900 – 1981), de quem passa a receber orientação estética

ca.1948 – Levado por Almir Mavignier, orientador do ateliê de pintura, conhece o Hospital Psiquiátrico do Engenho de Dentro

1949 – Inicia pesquisa no campo da luz e movimento

1951 – Dedica-se à solução de problemas técnicos industriais

1951 – Desenvolve processos de controle visual e automático em indústrias

1951 – Inventa várias máquinas e dispositivos de uso industrial e obtém patentes

1951 – Cria seu primeiro Aparelho Cinecromático

1954/1956 – Integra o Grupo Frente, no Rio de Janeiro

1955 – Projeta móveis modernos

1962 – Inventa um jogo de percepção O Quadrado Perfeito, e obtém copyright

1964 – Cria os Objetos Cinéticos, um desdobramento dos Objetos Cinecromáticos

1988 – Participa, como convidado, do concurso Uma Escultura para o Mar de Angra, promovido pela secretaria de Turismo do Rio de Janeiro

2002 – Recebe medalha do mérito Alberto Maranhão do Governo do Rio Grande do Norte

2002 – Lançamento do vídeo O Mundo da Arte – Abraham Palatnik – A Arte do Tempo, Documenta Vídeo Brasil, direção Carlos Cavalcanti.

2002 – Pioneer Palatnik – Painting Machines and Decelerating Machines, Instituto Cultural Itaú, São Paulo, Brasil

2004/2005 – Galeria Nara Roesler, São Paulo, Brasil

2008 – Ordenando as nuvens, Galeria Nara Roesler, São Paulo, Brasil

2009 – Ocupação Abraham Palatnik, Instituto Itaú Cultural, São Paulo, Brasil
Histórias e estórias da cor, Galeria Anita Schwartz, Rio de Janeiro, Brasil

2012 – Palatnik, une discipline do chaos, Galerie Denise René, Paris, França

 

Livros

A ARTE NO SECULO XXI, A HUMANIZAÇAO DAS TECNOLOGIAS

A ARTE NO SECULO XXI, A HUMANIZAÇAO DAS TECNOLOGIAS
Formato: Livro
Coleção: PRIMAS
Autor: DOMINGUES, DIANA
Editora: UNESP
Assunto: ARTES – TEORIA E HISTÓRIA

 

Videos

 
Abraham Palatnik comenta seu trabalho em seu apartamento e ateliê em vídeo

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